sábado, 26 de maio de 2012

Relato sobre a situação da ocupação na região do shopping park – Uberlândia





Desde o carnaval deste ano de 2012 cerca de 500 famílias ocupam as casas do programa habitacional da Caixa Econômica Federal na região do Shopping Park em Uberlândia, que, por motivação intencional ou incompetência não foram entregues aos moradores aos quais se destinavam. As moradias estão há 4 meses abandonadas e entrando em condição de deterioração. Do grupo de ocupantes foi expedida uma ordem de despejo de 200 famílias para o dia 24/04, e mesmo com as negociações iniciadas na semana anterior a policia decidiu realizar o despejo por blocos de 10 famílias. O advogado Igino Marcos (CPT- Comissão Pastoral da Terra) entrou com o pedido de Agravo no STF-DF para a suspensão da liminar de despejo do dia 24/04. Além desse recurso jurídico, é fundamental que haja uma pressão política resultatnte da luta dos próprios moradores do bairro, como também do apoio da sociedade civil e dos movimentos sociais. Mas quem são essas pessoas?

Trata-se de um grupo de trabalhadores com renda máxima de 700 reais mensais. Dentre cerca de 5% de seus integrantes, mais da metade ganha entre 1 salário mínimo (650) e 400 reais e o restante menos do que isso. Boa parte dos trabalhadores não possuem carteira assinada e realizam trabalho irregular, vinculados ao subemprego, aos “bicos” e até desempregados. A motivação para o ato de ocupação é clara: impossibilidade de pagar aluguel com salário tão baixo, próprio de um trabalhador desta categoria, numa cidade de grande especulação imobiliária onde o aluguel no mínimo é de 270 reais. Como pode uma família com a renda de 400 reais pagar aluguel e ainda comer? Diz um deles:“Tive que ocupar, como vou pagar 270 reais de aluguel se recebo 400 no trabalho de servente de pedreiro? Tenho mulher grávida e um filho para criar”. A atitude desesperada de ocupar uma casa vazia é compreensível: quem ouvir suas histórias se arrepiará pela miséria e violência a qual foram expostos antes de chegar à ocupação.

Do ponto de vista das relações sociais enganam-se aqueles que pensam num contexto com dificuldades materiais necessariamente encontramos tristeza e incapacidade. Quem participar de suas reuniões organizativas poderá observar crianças brincando, mulheres entoando cantos evangélicos, homens rindo das piadas contadas. Elementos aparentemente contraditórios são combinados: uma religiosidade forte com uma objetividade marcante, em suas falas sempre afirmam sua crença na ajuda de Deus mas nunca se esquecem de falar da necessidade da luta. O “pai nosso” é entoado antes das reuniões – Deus e Luta são vocábulos comuns em suas falas, e é rica e alegre a convivência em um lugar ao mesmo tempo pobre e extremamente diverso.
Esses trabalhadores estão abandonados pelos políticos e partidos que exercem relevante influência política e econômica nessa região, como ilustram as ações de duas figuras públicas principais envolvidas no caso. Fellipe Atiê não se pronuncia sobre a ocupação do programa habitacional que ele mesmo geriu e Gilmar Machado, seu concorrente, não quer auxiliar os ocupantes porque o sucesso da ocupação pode beneficiar seu adversário. Gilmar Machado entende que sua candidatura é mais importante do que a luta da população e Felipe Atiê (sabe-se disto por relatos públicos de moradores) incentivou um pequeno grupo de famílias a iniciar tal ocupação, tudo porque o programa habitação gerido apresenta problemas como casas não finalizadas, mal planejadas, feitas em barrancos e com encanamentos por terminar. Trata-se de uma verdadeira má administração do recurso público e a ocupação desviaria assim a atenção destes problemas do programa.

Ao mesmo tempo, episódios como a ação da prefeitura que busca criar dissidências internas, a tentativa de despejo e até desconfianças internas são elementos que dificultam o movimento de organização. Por outro lado, são situações que fortalecem sua luta, que os empurra para uma solidariedade entre seus membros e ajuda a dar clareza sobre quem são seus amigos e quem são seus inimigos.
Juntamente com a auto-organização dos ocupantes e o apoio da CPT e do Coletivo estudantil DialogAção (UFU), nós do Campo Debate Socialista (PSOL-UDI), coerentes com uma proposta política que pauta a luta de esquerda com conteúdo baseado no apoio, dialogo e construção coletiva com os movimentos sociais, sempre respeitando seus métodos e seus objetivos, buscamos combater a forma política viciada que temos observado em nossa cidade, a qual é explicitada pela ocupação aqui relatada.

“Quando morar é um privilégio ocupar é um direito”

Fernando H. S. Araújo – Campo Debate Socialista (PSOL-UDI)

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